A manhã seguinte.
Desci antes deles. Havia algo de restaurador em estar sozinha na cozinha inundada de sol, enquanto o resto da casa ainda respirava no ritmo lento do sono. Preparei o café forte, o aroma amargo e terroso preenchendo o ar, competindo com o cheiro de maresia que entrava pela janela aberta. Enquanto cortava o mamão e dispunha as frutas na mesa de madeira rústica, eu me peguei sorrindo para o nada, recapitulando flashes da madrugada como quem assiste a um filme favorito em câmera lenta.
Não demorou muito para eu ouvir passos descalços na escada. Era Manu.
Ela parou no batente da porta, parecendo subitamente tímida sob a luz crua do dia. O contraste era encantador: o rosto lavado, os cabelos presos em um coque frouxo e desgrenhado, e vestindo apenas uma camisa de linho branca de Fabiano. A peça ficava enorme nela, as mangas dobradas várias vezes e a barra batendo no meio das coxas, mas o cheiro dele nela era algo que eu podia sentir daqui.
— Bom dia — ela disse, a voz ainda rouca de sono.
— Bom dia, querida. — Apontei para a cadeira ao meu lado. — Sente-se. O café está fresco.
Ela se aproximou, e quando se sentou, nossos joelhos se roçaram debaixo da mesa. Nenhuma de nós se afastou. Havia uma nova familiaridade entre nós, uma barreira que tinha sido dissolvida. Notei uma marca pequena, levemente avermelhada, na base do pescoço dela. Ela percebeu meu olhar, tocou o local com a ponta dos dedos e corou violentamente, mas sorriu. Um sorriso de quem guarda um segredo delicioso.
Fabiano desceu logo em seguida. Ele já estava de bermuda, sem camisa, com o cabelo molhado de quem tinha acabado de lavar o rosto. A energia dele preencheu a cozinha imediatamente. Ele caminhou até nós, parou atrás da cadeira de Manu e beijou o topo da cabeça dela, demoradamente. Depois, veio até mim, segurou meu rosto com uma das mãos e me deu um beijo nos lábios — um beijo calmo, de reconhecimento, de "estamos juntos nisso".
— Achei que vocês dormiriam até o meio-dia — provocou ele, servindo-se de café e sentando-se na cabeceira, completando nosso triângulo.
— A fome bateu mais cedo — respondeu Manu, levando uma uva à boca. A forma como ela disse "fome", e o olhar que lançou a Fabiano por cima da xícara, carregava um duplo sentido que fez o ar da cozinha ficar subitamente mais denso.
Ele riu baixo, aquele som grave que vibrava no peito.
— É... certas atividades abrem o apetite.
O café da manhã transcorreu em uma atmosfera de preguiça e indulgência. Falávamos pouco. Não havia necessidade de discutir o que tinha acontecido; estava presente em cada gesto. Na forma como ele passava a geleia na torrada para Manu, na maneira como eu servia mais café para ele, na troca de olhares que acontecia toda vez que alguém se movia.
Era uma domesticidade estranha e excitante. A normalidade de comer frutas e beber café, sobreposta à memória tátil da pele deles na minha, dos sussurros no escuro.
Quando terminamos, ele se espreguiçou, jogando os braços para trás.
— A maré está baixa. Perfeita para um mergulho.
Ele se levantou e estendeu a mão para Manu. Ela hesitou por um segundo, olhando para mim. Eu apenas assenti, tomando um último gole do meu café, sentindo o calor do líquido descer pela garganta.
— Vão indo — eu disse, observando como a camisa dele caía sobre o corpo dela quando ela se levantou. — Eu encontro vocês na água em cinco minutos.
Eu os observei caminhando pelo deck em direção à areia. Ele passou o braço pelos ombros dela, puxando-a para perto, e ela encostou a cabeça no peito dele. Era uma imagem bonita. Perigosa, talvez, para os padrões lá de fora, mas ali, naquela bolha de sol e sal que criamos, parecia a coisa mais natural do mundo.
Respirei fundo, sentindo uma onda de antecipação. O dia estava apenas começando, e eu sabia que a noite anterior não tinha sido um evento isolado, mas sim a abertura de uma porta que nenhum de nós queria fechar tão cedo.
A praia era nossa. Olhando para a extensão de areia branca que se perdia no horizonte, não havia uma única alma viva além de nós três. O sol de meio-dia transformava o mar em um espelho cintilante, ofuscante demais para olhar diretamente sem apertar os olhos.
Caminhei até a beira d'água. Fabiano já estava longe, um ponto escuro nadando vigorosamente contra a rebentação, aproveitando a liberdade do mar aberto. Manu, no entanto, ficou no raso. A água batia em sua cintura, e ela parecia uma estátua de bronze sendo polida pela espuma branca das ondas.
Quando entrei, o choque térmico da água fria contra a minha pele aquecida pelo sol foi eletrizante. Caminhei até ela. Manu não se virou quando me aproximei; ela sabia que eu estava lá. A tensão da noite anterior não havia se dissipado com a luz do dia; ela tinha apenas mudado de forma, tornando-se mais crua, mais visual.
— Ele nada bem — comentou Manu, protegendo os olhos com a mão para observar Fabiano longe dali.
— Ele gosta de desafios — respondi, parando ao lado dela.
Uma onda um pouco mais forte veio em nossa direção. Instintivamente, Manu se desequilibrou e segurou meu braço para não cair. O toque da pele molhada dela contra a minha foi o gatilho. Ela não soltou meu braço depois que a onda passou. Pelo contrário, seus dedos apertaram levemente minha pele, e ela se virou para ficar de frente para mim.
Ali, com a água nos cercando e o som ensurdecedor do mar abafando qualquer outro ruído, o mundo se reduziu a nós duas. O biquíni dela era pequeno, e a água o fazia aderir à pele de uma forma que deixava pouco para a imaginação. Eu sabia que ela via o mesmo em mim.
— Lari... — ela começou, mas a voz morreu na garganta.
Não esperei. Dei um passo à frente, eliminando a distância. A água entre nossos corpos servia como um condutor, ampliando o calor em vez de resfriá-lo. Coloquei minhas mãos na cintura dela, sentindo a curva suave do quadril sob a água fria. Ela arfou, um som pequeno que foi engolido pelo mar.
Os olhos dela, azuis e dilatados, fixaram-se nos meus com uma intensidade que beirava a insolência. Havia uma curiosidade nela, uma vontade de explorar aquele território que, até a noite passada, era proibido.
Ela levou as mãos ao meu pescoço, entrelaçando os dedos na minha nuca, puxando-me suavemente. Quando nossos lábios se encontraram, não teve a urgência da madrugada, mas teve um sabor diferente: tinha gosto de sal, de sol e de perigo. Foi um beijo lento, úmido, onde exploramos a maciez uma da outra com uma calma deliberada, aproveitando o fato de estarmos expostas a céu aberto, mas completamente escondidas pela solidão da praia.
Minhas mãos deslizaram pelas costas dela, sentindo a pele arrepiada, descendo até onde a água nos cobria, traçando caminhos que a faziam arquear o corpo contra o meu. O atrito de nossos corpos molhados, o balanço das ondas nos empurrando uma contra a outra, criava uma fricção deliciosa e agonizante.
Por um momento, esqueci de Fabiano. Esqueci do tempo. Só existia a respiração entrecortada de Manu contra o meu rosto e a audácia do que estávamos fazendo sob a luz plena do dia.
Então, ela se afastou milímetros, os lábios inchados e vermelhos, e olhou por cima do meu ombro.
— Ele está olhando — sussurrou ela, com um brilho travesso nos olhos.
Virei-me devagar. Ele estava parado onde a água batia no peito, a uns trinta metros de distância. Ele não estava nadando. Estava imóvel, observando-nos fixamente. Mesmo de longe, pude sentir o peso do olhar dele, possessivo e aprovador. Ele não fez menção de vir até nós; ele estava nos dando espaço, permitindo que aquele momento fosse nosso, enquanto ele apreciava a visão de suas duas mulheres entrelaçadas pelo mar.
Voltei a olhar para Manu, que sorria, sentindo-se poderosa sob aquele duplo escrutínio.
— Deixe que olhe — murmurei, puxando-a de volta para mim. — O show está apenas começando.
