Vou fazer um relato sobre o que aconteceu no ano novo. Eu, meu marido Fabiano e a namoradinha dele a Manu.
Decidi não descrever nada explícito, até porque esse momento não foi apenas sexo, foi muito mais do que isso, foi cumplicidade
A brisa da madrugada de primeiro de janeiro trazia o cheiro de sal e maresia para dentro da varanda ampla da casa de praia. O som das ondas quebrando na areia, ritmado e hipnótico, misturava-se ao jazz suave que tocava na sala de estar.
Eu estava recostada no parapeito de vidro, segurando uma taça de cristal com o resto do champanhe que já havia perdido o gelo. A roupa de seda branca, agora levemente úmida pela umidade da noite, moldava-se ao seu corpo como uma segunda pele. Meus olhos, contudo, não estavam no mar escuro, mas no interior da sala.
Lá dentro, Fabiano servia mais uma dose de vinho. Aos 50 anos, o tempo havia sido generoso com ele. O grisalho nas têmporas e a barba por fazer conferiam-lhe uma autoridade silenciosa, um charme rústico que contrastava com a elegância do linho que vestia. Ele ria de algo que Manu dizia.
Manu, com seus 19 anos, era a personificação da vitalidade. Havia uma eletricidade nela, uma luz própria que parecia rivalizar com os últimos fogos de artifício que estouravam longe, na linha do horizonte. Ela usava um vestido curto branco, e sua pele dourada pelo sol da semana inteira brilhava sob a luz âmbar do lustre.
Arthur caminhou até a varanda, trazendo duas taças. Ele parou ao meu lado mas seus olhos encontraram os da Manu, que os seguiu descalça, pisando suavemente no deck de madeira.
— O ano começou bem — disse ele, sua voz grave vibrando no ar morno. Ele entregou uma taça para Manu, e os dedos deles se tocaram por um instante a mais do que o necessário.
Observoi o gesto. Não havia ciúmes, apenas uma curiosidade afiada, uma brasa que aquecia seu estômago. Eu conheço o meu marido; sei como ele aprecia a beleza, mas, mais do que isso, sei como ele aprecia ser desejado. E Manu, com a audácia inocente da juventude, o olhava com uma admiração que transbordava.
— Nunca vi um céu tão estrelado — comentou Manu, apoiando-se no parapeito ao meu lado. O perfume dela era doce, frutal, contrastando com o aroma amadeirado de Fabiano.
Eu sorri, passando a mão devagar pelas costas dele, sentindo a musculatura tensa sob a camisa.
— A noite esconde e revela muitas coisas, Manu.
O silêncio que se instalou entre os três não era vazio; era denso, carregado de intenções não ditas. Ele colocou a mão sobre a minha, que repousava no parapeito, mas seu corpo estava voltado levemente para a jovem. A tensão no ar era palpável, como a eletricidade antes de uma tempestade de verão.
Manu mordeu o lábio inferior, um gesto inconsciente, e olhou para nós. Havia uma pergunta muda em seus olhos grandes e escuros. Eu com a confiança de quem conhece o próprio poder, apenas sustentei o olhar.
— Está calor — sussurrou Manu, abanando-se levemente com a mão livre.
Ele deu um passo à frente, encurtando a distância. Ele agora formava o vértice de um triângulo íntimo.
— A brisa ajuda — disse ele, num tom baixo, quase confidencial. — Mas o calor... o calor vem de dentro.
Ele estendeu a mão livre e, com a ponta dos dedos, afastou uma mecha de cabelo que caía sobre o ombro de Manu. O toque foi leve, quase imperceptível, mas fez a jovem prender a respiração. Eu observei a pele de Manu se arrepiar, visível mesmo à meia-luz.
Me aproximei, fechando o cerco. Toquei o braço de Manu, sentindo o calor que emanava da pele jovem.
— Vamos entrar? — sugeri, a voz rouca. — O vinho está melhor lá dentro. E a música...
Não precisei terminar a frase. A sugestão pairava no ar, pesada e doce. Ele sorriu, um sorriso lento que não chegava a ser predatório, mas que prometia tudo.
Manu assentiu, hipnotizada pela dinâmica do casal, sentindo-se atraída pela gravidade que eles exerciam. Os três se viraram para a porta de vidro aberta. O som do mar ficou para trás, abafado, enquanto as cortinas de voal dançavam com o vento, fechando o mundo lá fora e deixando apenas o desejo, o mistério e a promessa daquela primeira madrugada do ano.
Ainda sinto o gosto de sal e champanhe quando fecho os olhos. O sol agora invade o quarto através das cortinas de linho semiabertas, pintando faixas de luz dourada sobre os lençóis revoltos, mas minha mente ainda está presa na penumbra da madrugada.
Tudo mudou quando saímos daquela varanda. Lembro-me de guiar Manu para dentro; a pele dela estava quente sob meus dedos, uma febre que contrastava com o ar fresco que vinha do mar. Fabiano veio logo atrás, fechando a porta de vidro, e com aquele simples clique, o som das ondas se tornou um sussurro distante, isolando nós três em um mundo particular.
Não houve necessidade de muitas palavras. A linguagem daquela noite foi feita de silêncios pesados e toques demorados. Lembro-me de como o jazz parecia ditar o ritmo da nossa respiração, que ia ficando mais curta, mais sincronizada. Arthur serviu mais uma taça, mas ninguém bebeu. A taça ficou esquecida na mesa de centro enquanto a tensão que pairava na varanda finalmente se rompia, não com pressa, mas com uma lentidão deliberada e enlouquecedora.
Houve um momento, já no tapete da sala, em que perdi a noção de onde eu terminava e onde eles começavam. Era uma confusão de perfumes — o amadeirado dele, o frutado dela, o meu — e de texturas. A aspereza da barba de Fabiano roçando meu pescoço, a maciez surpreendente da pele da Manu, o peso dos corpos se acomodando, se encaixando como peças que finalmente encontraram seu lugar.
As luzes foram apagadas, uma a uma, até sobrar apenas o brilho difuso que vinha da lua lá fora. O que aconteceu depois não foi apenas físico; foi uma dança de sombras e sussurros, uma entrega absoluta onde o tempo perdeu o sentido. Não havia ciúmes, apenas uma generosidade compartilhada, um desejo de ver e ser vista, de tocar e ser tocada em uma sintonia que eu jamais imaginei ser possível.
Agora, olhando para a cama imensa, vejo Fabiano dormindo profundamente, um braço jogado de forma protetora sobre os travesseiros. Do outro lado, Manu ainda dorme, o cabelo espalhado como um leque sobre o lençol branco, com uma expressão de paz absoluta no rosto. O vestido de dela está caído no chão, ao lado da camisa de linho dele e da minha roupa, todos misturados em um emaranhado de tecidos que conta a história da nossa noite melhor do que qualquer palavra.
Levanto-me devagar para não acordá-los, sentindo o corpo leve, mas exausto de uma maneira deliciosa. O ano novo começou não com fogos de artifício no céu, mas com um incêndio silencioso entre quatro paredes, cujas brasas eu sei que ainda vão demorar muito para apagar.
